Casa e Decoração

A redenção do plástico

dezembro 2011

Houve um tempo em que o material determinava o status do objeto. Um armário tinha mais valor se era construído em mogno ou carvalho. Não importava se algum designer surgia com um projeto mais bonito e funcional fabricado com espécies mais humildes na hierarquia das árvores. Sendo composta em madeira de lei, a peça podia ser uma caixa quadrada que já estava incluída na lista dos produtos nobres.

Isso vem mudando. Hoje, a madeira de reflorestamento ganha atenção de designers, tornando o carimbo da sustentabilidade um charme a mais. Uma das trajetórias mais curiosas dos materiais rejeitados foi protagonizada pelo plástico, que já foi símbolo da falta de qualidade do capitalismo moderno. Artistas como o escritor Norman Mailer e o cineasta Jaqcues Tati fizeram oposição severa ao plástico, que para eles representava a industrialização da própria vida (Mailer chegou a dizer que o plástico era o “equivalente social do câncer”).

Das décadas de 50 e 60 até hoje, a ascensão do plástico é evidente. Além de ganhar espaço como material funcional e barato, foi adotado por designers como Philippe Starck e Karim Rashid nos anos 90, que ficaram famosos pelo uso do material na criação de utensílios que mais pareciam obras de arte. E, nos anos 2000, o ecologicamente correto finalmente passou a fazer parte da agenda, abrindo um novo espaço para o plástico, uma vez que pode ser reciclado dezenas de vezes sem que o usuário perceba que a matéria-prima tenha passado pelo lixo diversas vezes.

Nas décadas de 70 e 80, o material já começava a dar sinais de prestígio ao ser associado com o avanço da tecnologia. No walkman e no computador pessoal, o plástico passou a ser peça fundamental de objetos desejados. Mas o grande salto foi o lançamento da lendária caneta esferográfica, que hoje chega a vender 3 bilhões de unidades por ano, um eterno case de sucesso do design.

A história do plástico no século 20 começa com os primeiros eletrodomésticos, que se utilizavam do material para ficarem mais leves e fáceis de limpar, uma característica importante para popularizar a venda de fogões e geladeiras. E a Era do Rádio, nas décadas de 1920 e 1930, foi também a “Era do Plástico”, já que os aparelhos de rádio acabaram se transformando em um meio de comunicação indispensável para todas as classes, e a substituição da madeira pelo plástico deixava o produto final muito mais barato (nessa época o plástico ainda era camuflado para imitar a madeira). A 2ª Guerra Mundial foi um período importante para a afirmação do plástico, que foi usado em lanternas, para-quedas e até como isolante na bomba atômica. E, como os recursos eram escassos e o plástico, relativamente barato, ele passou a ser usado como substituto de muitos outros materiais, várias vezes de maneira inadequada.

Essa utilização incorreta provocou uma rejeição considerável aos produtos de plástico, que eram percebidos como objetos de baixa qualidade. Foi apenas por motivos de higiene que algum tempo mais tarde o plástico deixou de ser vilão para virar mocinho. Apenas na década de 1940 os designers se deram conta que a impermeabilidade era um fator importante na hora da escolha dos materiais que compunham os objetos da cozinha e do banheiro. Foi assim, através das cortinas de banheiro e dos assentos sanitários, que o plástico entrou de vez na casa das pessoas - e não saiu mais.

Imprimir esta matéria



Share |
voltar